"O Roubo da Cuia", uma história sobre memória, coragem e o retorno às origens
E se o que foi roubado de um povo pudesse ser reencontrado pelas mãos de uma jovem curiosa?
Tássita de Assis Moreira
11/11/20252 min read


Em O Roubo da Cuia, escrito por Mayra Sigwalt e publicado pela editora PeraBook no projeto Vozes Originárias, acompanhamos uma história que começa como uma viagem de estudos e se transforma em uma jornada profunda de memória e ancestralidade.
A protagonista, Renata, é uma jovem de 16 anos, pertencente ao povo Kaingang, que foi selecionada para participar da Olimpíada Internacional de Matemática, na Dinamarca, no final da década de 1950. Tudo muda quando, durante uma visita a um museu, ela reconhece um objeto muito familiar, uma cuia sagrada que pertence ao seu povo e que foi roubada há gerações durante o processo de colonização.
Narrada em tom de lembrança, Renata, já avó, conta aos netos a história do que viveu naqueles dias. A história se desenrola com a delicadeza das narrativas orais, lembrando uma conversa em volta da fogueira ou uma história que contamos antes de dormir, sabe?
As ilustrações da artista indígena TAI são um espetáculo à parte: vibrantes, simbólicas e repletas de significado. Cada traço reforça a força estética e política da obra, unindo arte e narrativa em uma leitura que emociona. Especialmente no desfecho, quando Renata se encontra com suas ancestrais de forma poética e arrebatadora. Simplesmente, EMOCIONANTE!
Uma história sobre colonização, patrimônio e pertencimento
Mais do que uma aventura, O Roubo da Cuia é uma reflexão sobre o impacto da colonização na memória dos povos originários e sobre o direito de reaver o que lhes foi tirado, como objetos, histórias, modos de viver.
Essa é uma história que já vem sendo observada há algum tempo e teve desdobramentos como a repatriação do Manto Tupinambá (que também aparece na história do livro), porém ainda há um abismo muito grande nessa relação de objetos que foram retirados de povos indígenas há séculos e nunca foram (provavelmente nem serão) devolvidos.
A metáfora da cuia roubada ganha ainda mais força quando lembramos de notícias recentes sobre o roubo no Museu do Louvre, despertando questionamentos sobre quem tem o poder de guardar e narrar o patrimônio cultural da humanidade.
Um livro para projetos educacionais
Por sua profundidade e sensibilidade, O Roubo da Cuia é uma leitura potente para projetos educacionais de história, artes e literatura, especialmente no ensino fundamental II e médio.
A obra pode ser trabalhada em temáticas como:
Colonização e patrimônio cultural;
Resgate de memórias e identidades indígenas;
Educação decolonial e narrativa sensíveis;
Representação e autoria indígena na literatura brasileira contemporânea.
A obra oferece oportunidades riquíssimas para debates em sala de aula, rodas de conversa e projetos interdisciplinares. Professores podem propor atividades que envolvam pesquisa sobre objetos culturais de diferentes povos, reflexões sobre a presença de acervos indígenas em museus europeus, ou mesmo produções artísticas inspiradas nas ilustrações.
Vozes que precisam ser ouvidas
O Roubo da Cuia é apenas um dos mais de 20 títulos do projeto Vozes Originárias, da PeraBook, uma coleção dedicada a trazer à tona as narrativas e memórias dos povos indígenas, contadas por quem as vive e as herda. Ler a história de Renata é, de certo modo, ouvir nossas próprias ancestrais chamando de volta o que foi esquecido.
✨ Dica: este é um daqueles livros que atravessam gerações, para ser lido por crianças, educadores e qualquer pessoa disposta a ouvir as vozes que ecoam da terra.