Fantasmas, de Daniel Munduruku: quando a memória se recusa a ser silenciada

Daniel Munduruku constrói um romance que rompe com a lógica tradicional da literatura brasileira ao deslocar o ponto de vista, colocando o homem indígena para contar sua história.

12/18/20253 min read

Há livros que não nos deixam sair ilesos da leitura. Fantasmas, de Daniel Munduruku, é um desses livros. Não porque seja fácil, confortável ou conciliador, mas justamente porque nos obriga a encarar aquilo que o projeto colonial tentou, e ainda tenta, apagar: a memória dos povos indígenas e a violência sistemática que marcou (e marca) sua existência.

A narrativa de Fantasmas se constrói a partir do testemunho de um homem indígena aprisionado que, a pedido de seu advogado, revisita o episódio traumático que dizimou seu povo. Os homens brancos responsáveis pelo massacre são chamados de “fantasmas”, não apenas por surgirem e desaparecerem, mas porque representam uma presença histórica que assombra, invade, destrói e não assume responsabilidade.

Movido pela dor e pela impossibilidade do esquecimento, o protagonista confessa o assassinato daqueles que exterminaram seu povo. No entanto, como tantas histórias indígenas, seu relato não encontra provas, documentos ou registros oficiais que o legitimem. O que existe é a memória e, no sistema de justiça ocidental, ela raramente é suficiente.

É nesse ponto que a narrativa ganha uma camada ainda mais potente, a aliança entre o homem indígena aprisionado e Salomão, um advogado negro. Dois sujeitos historicamente marginalizados pelo mesmo sistema, que se reconhecem não apenas na dor, mas na urgência de não permitir que o passado seja silenciado. A amizade que nasce entre eles não é romantizada, ela é política, estratégica e profundamente humana.

Daniel Munduruku constrói um romance que rompe com a lógica tradicional da literatura brasileira ao deslocar o ponto de vista. Aqui, não é o colonizador que narra, interpreta ou justifica, é o indígena que conta, que nomeia a violência e que reivindica outra ideia de justiça, uma justiça que não se limita à lei escrita, mas que considera a memória, a ancestralidade e o direito à verdade.

Sugestões de práticas pedagógicas para o Ensino Médio

1. Leitura orientada com foco na memória e na narrativa
Proponha a leitura do livro a partir de perguntas guiadas, como:

  • Quem narra essa história?

  • O que significa contar a própria memória?

  • O que acontece quando uma história não é reconhecida como verdade?

Após a leitura, os estudantes podem produzir um texto em formato de carta conversando com o protagonista e relacionando a história do livro com o apagamento histórico dos povos indígenas no Brasil.

2. (Continuação da atividade 1) Análise da palavra “fantasmas” como metáfora
Em pequenos grupos, os alunos podem discutir o uso da palavra “fantasmas” no livro:

  • Quem são esses fantasmas?

  • O que eles simbolizam?

  • Que outros “fantasmas” ainda estão presentes na sociedade brasileira hoje?

A atividade pode culminar em um mapa conceitual ou cartaz.

3. Diálogo entre literatura e história
A partir do livro, proponha uma pesquisa orientada sobre:

  • massacres indígenas no Brasil;

  • a invisibilização de povos originários;

  • o papel da memória como forma de resistência.

O foco não é a exposição de cenas de violência, mas a análise crítica do silêncio histórico e das narrativas oficiais.

4. Roda de conversa mediada
Faça uma roda de conversa estruturada, com combinados de escuta e respeito, refletindo sobre:

  • justiça

  • reparação

  • vingança

  • memória

  • quem tem o direito de contar a história

Aqui, o professor atua como mediador, não como juiz, reforçando o cuidado com temas sensíveis.

Fantasmas é um livro sobre vingança, sobre memória, aliança entre minorias e sobre a necessidade de reescrever as narrativas que sustentam o imaginário social. Um romance que nos convida a perguntar: quem são, afinal, os verdadeiros fantasmas da nossa história? E a que vieram?

Essa resenha é fruto da parceria com o projeto Record Educação @recordeducacao